Militar, hidrógrafo, diplomata e senador pelo Amazonas, José da Costa Azevedo participou da Guerra do Paraguai, resistiu à queda da Monarquia e deixou seu nome na história de Manaus
Uma rua no Centro de Manaus preserva o nome de um personagem importante para a história do Brasil e do Amazonas. Trata-se de José da Costa Azevedo, conhecido como Barão de Ladário, militar da Marinha Imperial que também atuou como hidrógrafo, diplomata e parlamentar.
Além de participar de acontecimentos marcantes da história nacional, ele contribuiu para o reconhecimento geográfico da Amazônia. Seus trabalhos ajudaram a documentar rios estratégicos da região e forneceram informações importantes sobre navegação e definição de fronteiras.
Nesse contexto, sua trajetória atravessou dois períodos políticos do Brasil: o Império e a Primeira República. Dessa forma, sua história reúne episódios militares, descobertas científicas e disputas pelo poder.
Barão de Ladário ajudou a mapear rios amazônicos
Uma das principais contribuições de José da Costa Azevedo está relacionada aos levantamentos hidrográficos realizados na Amazônia.
Ao longo da carreira, participou de comissões responsáveis por estudar rios, registrar canais e estabelecer posições geográficas. Entre os documentos históricos relacionados à sua atuação estão cartas dos rios Japurá, Javari e Içá, além do canal Auaty-Paraná.
Naquele período, os rios representavam as principais vias de transporte, comunicação e abastecimento da região. Por isso, conhecer os cursos d'água também significava ampliar a capacidade do Estado brasileiro de administrar o território e defender suas fronteiras.
Além disso, o trabalho contou com a participação de outros oficiais e técnicos. Entre eles estavam João Soares Pinto, Joaquim Xavier de Oliveira Pimentel, Joaquim Leovegildo de Souza Coelho e Vicente Pereira Dias.
Costa Azevedo também produziu estudos sobre navegação e questões territoriais. Em 1863, apresentou uma resposta às críticas contra os procedimentos da comissão de demarcação entre Brasil e Peru. Posteriormente, em 1871 e 1875, publicou novos trabalhos sobre a defesa das atividades da comissão e os limites entre os dois países.
Carreira militar começou ainda na adolescência
Nascido no Rio de Janeiro, em 30 de novembro de 1823, segundo os registros da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, Costa Azevedo ingressou na Armada Imperial em 23 de fevereiro de 1839.
Ainda adolescente, iniciou uma carreira que o levaria aos mais altos postos da Marinha brasileira. Ao longo dos anos, recebeu sucessivas promoções até alcançar o posto de chefe de esquadra, em dezembro de 1882.
Sua formação também incluiu uma experiência na Marinha dos Estados Unidos, onde aperfeiçoou conhecimentos técnicos. Na ocasião, desenvolveu estudos sobre embarcações, artilharia e navegação.
No início da carreira, participou de importantes operações de salvamento marítimo. Entre elas, esteve o resgate de pessoas do navio inglês Ocean Monarch, incendiado nas proximidades de Liverpool.
Além disso, participou do socorro à embarcação portuguesa Vasco da Gama, na Baía de Guanabara, e de operações contra a Revolução Praieira, em Pernambuco, em 1849.
Guerra do Paraguai marcou sua trajetória
A atuação militar de Costa Azevedo ganhou destaque durante a Guerra do Paraguai.
Naquele conflito, comandou o encouraçado Silvado em operações de passagem pelas baterias de Angostura. Sua atuação demonstrou experiência no comando de embarcações em situações de combate.
Em reconhecimento aos serviços prestados, recebeu promoção a capitão de mar e guerra, em 1869, por distinção e bravura.
Anos depois, o reconhecimento imperial ganhou outro capítulo. Em 12 de agosto de 1885, um decreto concedeu a José da Costa Azevedo o título nobiliárquico de Barão de Ladário, em razão de seus serviços militares.
Barão de Ladário resistiu à Proclamação da República
Um dos episódios mais marcantes de sua vida aconteceu em 15 de novembro de 1889.
Naquele momento, Costa Azevedo ocupava o Ministério da Marinha no gabinete do Visconde de Ouro Preto. Como integrante do governo imperial, resistiu ao movimento militar que derrubou a Monarquia.
Durante os acontecimentos, ficou gravemente ferido.
O episódio representa um capítulo importante da transição política brasileira. Afinal, a Proclamação da República não ocorreu sem resistência e conflitos entre os grupos envolvidos na mudança de regime.
Entretanto, a queda do Império não encerrou sua trajetória na vida pública. Pelo contrário, Costa Azevedo continuou atuando na política brasileira durante os primeiros anos da República.
Representou o Amazonas na Câmara e no Senado
A ligação de Barão de Ladário com o Amazonas também passou pela política.
Inicialmente, a Câmara dos Deputados registra sua posse como representante do estado em 5 de fevereiro de 1879, ainda durante o período imperial.
Posteriormente, já na República, assumiu um mandato de senador pelo Amazonas em 1894. Em 1903, retornou ao Senado após uma disputa política envolvendo diferentes grupos de influência nacional.
O episódio ocorreu em meio a uma controvérsia eleitoral envolvendo Antônio Clemente Ribeiro Bittencourt, que havia vencido a eleição, mas teve sua vitória anulada pela Comissão dos Cinco.
Com o apoio de Pinheiro Machado e após uma disputa no plenário, Costa Azevedo acabou reconhecido como vencedor.
Dessa maneira, o caso demonstra como as articulações políticas nacionais também influenciavam a representação do Amazonas nos primeiros anos da República.
Missão diplomática levou o militar à China
Além da carreira militar e parlamentar, Costa Azevedo também atuou na diplomacia brasileira.
Em 4 de março de 1893, recebeu nomeação para exercer a função de enviado extraordinário e ministro plenipotenciário na China.
A missão buscava fortalecer as relações brasileiras com os países asiáticos, especialmente nas áreas comercial e migratória.
No entanto, o trabalho enfrentou dificuldades sanitárias e os efeitos da guerra entre China e Japão. Diante desse cenário, em novembro de 1894, o governo brasileiro determinou seu retorno.
Apesar dos obstáculos, a missão representou mais um capítulo de sua atuação internacional. O governo reconheceu seu empenho, embora as circunstâncias tenham impedido os resultados esperados.
Documentos históricos preservam seu legado
José da Costa Azevedo morreu no Rio de Janeiro em 24 de outubro de 1904.
Sua trajetória deixou registros importantes para a história militar, científica, diplomática e política do Brasil.
Parte dessa documentação permanece preservada na Biblioteca Nacional, por meio da Coleção Ladário. O acervo reúne correspondências, relatórios, ofícios, apontamentos geográficos, desenhos, projetos de embarcações e documentos relacionados à Guerra do Paraguai.
Além disso, os registros permitem compreender não apenas sua atuação individual, mas também a participação de diferentes profissionais nas atividades militares, científicas e políticas daquele período.
Em Manaus, a rua Costa Azevedo mantém viva a lembrança desse personagem histórico.
Mais do que uma homenagem urbana, o nome representa a ligação de um militar e homem público com o Amazonas. Afinal, Barão de Ladário ajudou a documentar rios da região, participou de estudos sobre fronteiras e representou o estado no Parlamento durante o Império e a República.
Portanto, resgatar sua história significa reconhecer personagens que contribuíram para a formação territorial, política e institucional do Amazonas.
Com informações do levantamento histórico de Durango Duarte e registros da Câmara dos Deputados, Senado Federal, Arquivo da Marinha e Biblioteca Nacional.